7 de agosto de 2010

Reportagem Tribuna de Minas

Vizinhança do Dom Orione apela para Justiça

CAROLINA TAFURI
Repórter

O período letivo de 2009 já está na reta final e ainda é incerto para estudantes que saíram da Escola Estadual Dom Orione, no Bairro Dom Bosco, na Cidade Alta. Algumas crianças e adolescentes continuam fora das salas de aula, enquanto outros percorrem longas distâncias para chegar aos novos colégios. A Dom Orione fechou as portas em julho e, apesar dos vários protestos da comunidade, ainda não há sinal de que instituição volte a funcionar. A próxima aposta da população é voltar os esforços para a Justiça. Conforme a advogada que acompanha o caso Eveline Caputo, a intenção é enviar uma ação civil pública, até o final desta semana, para a Vara da Fazenda Pública Estadual, solicitando a reabertura da unidade de ensino. “Neste documento, já preparado, pedimos prioridade na reforma da instituição, que hoje está em péssimas condições de infraestrutura. A legislação brasileira garante não só educação, mas um espaço físico adequado e seguro.” As ações contam com apoio do Conselho Tutelar Centro Sul. A comunidade mantém as reuniões semanais, que contam principalmente com a participação das mães. Elas reafirmam que “a luta continua” até que a unidade seja reaberta.

O fechamento da Dom Orione criou uma série de dificuldades para alunos e seus familiares. Por causa das diferenças pedagógicas e de conteúdo entre uma instituição e outra, alguns alunos têm se sentido inferiorizados em relação aos novos colegas. Os sentimentos relatados são de humilhação e abandono. Mãe de dois filhos, de 14 e 11 anos, que estão fora da escola, a cozinheira Elimar Aparecida da Silva, 31, expressa tristeza em saber que eles praticamente já perderam o ano letivo. “Minha menina e meu menino nunca repetiram de série, e, agora, é o que vai acontecer. Não consegui outro colégio, e hoje a ocupação deles é só rua, rua e rua.” A situação se repete com o filho de 11 anos da dona de casa Mônica Aparecida Fernando, 42. “Rodei todas as escolas mais próximas e não consegui vaga. Sinto-me um pouco fracassada por ver o meu menino perder o ano letivo. Ele também está muito triste.”

Já para doméstica Áurea Maria Pereira, 42, a principal preocupação é com a situação que a filha de 11 anos está vivendo na nova escola. Ela está no sexto ano do ensino fundamental em uma instituição municipal. “Os colegas de classe riem porque ela não consegue acompanhar o ritmo da turma. Outro dia, durante uma prova, o professor disse em voz alta que ela estava de ‘olho grande’ na prova dos outros. Ela adoeceu e precisou se afastar sete dias das aulas, por recomendação médica.”

Sacrifício para chegar ao destino
A distância é mais um empecilho para os alunos rematriculados em outras escolas. Apesar de ter conseguido levar seus filhos para outros estabelecimentos na semana passada, a doméstica Maria de Cássia Procópio, 43, não está entusiasmada. “O maior, de 18 anos, foi para o Fernando Lobo (em São Mateus), e o menor, com 11, está na escola municipal do Bairro Santa Cecília, mas já sei que ele não vai passar de ano.” Os meninos vão a pé, e ela se diz preocupada com o período de chuvas.

Taynan da Silva, 19, caminha 40 minutos do Dom Bosco à Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio, no São Pedro, onde estuda desde semana passada. “É longe. As minhas costas ficam doendo de carregar a mochila pesada. É muito ruim, muito morro”, diz a estudante, acrescentando que se sente com conhecimento defasado em relação à turma do primeiro ano do ensino médio. “Já tirei zero em duas provas.” O professor de futebol Rafael Monteiro, que dá aulas para ex-alunos no Instituto Dom Orione, acrescenta que “as mães estão sem acesso aos históricos escolares dos filhos, documento cobrado pelos outros colégios”.

Diretora educacional da SRE, Maura Gaio diz que há vagas para atender a demanda, e que os responsáveis devem procurar a entidade. Quanto à defasagem escolar, explica que o órgão “não pode atuar nas escolas municipais”. Já quanto aos transferidos para entidades estaduais, garante que fará pedido de ajustamento pedagógico (avaliação diagnóstica para ajustar o aluno na turma). A diretora educacional esclarece, ainda, que os históricos estão disponíveis na Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio, no São Pedro.