Carolina Tafuri – repórter
Corrupção, violência e falhas na saúde são, nessa ordem, os maiores problemas de Patos de Minas na opinião de leitores do CONTEXTO. A relação é resultado de enquete on-line realizada recentemente pelo site*. A corrupção foi escolha de 34,8% dos participantes, seguida de perto por segurança (32,7%) e depois por saúde (17,4%). Os internautas também tinham desemprego (10,9%), educação (4,3%) e pobreza (0%) como possibilidades de voto.
O panorama local aponta semelhança com pesquisa sobre o mesmo tema divulgada em dezembro de 2011 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Nesta, os brasileiros indicaram violência (23%), deficiências na saúde (22,3%) e corrupção (13,7%) como os problemas mais graves do país. Em relação a Patos de Minas, portanto, as três opções mais votadas são as mesmas, mudando a ordem classificatória.
Em matéria da Agência Brasil sobre a pesquisa nacional, o professor do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) Gustavo Venturi disse que a percepção da sociedade sobre quais são as principais falhas do Brasil variam conforme a idade, renda e região. A tendência, de acordo com ele, é cada grupo avaliar a situação a partir de sua própria realidade, existindo diferença de “agenda” entre as camadas da população.
Já o resultado da enquete do CONTEXTO foi analisado pelo professor de Geografia Luís Geraldo Xavier, também graduado em História, que leciona na cidade. “Não sei se os patenses têm uma relação tão diletante e próxima com o poder público local para saber profundamente se existe uma corrupção crônica. O aparecimento dela como o principal problema da cidade é mais uma sombra midiática do que uma preocupação da sociedade em relação à administração”, avaliou.
De acordo com o professor, é comum que um assunto de repercussão nacional exposto todos os dias na imprensa reflita no contexto local. Ele explicou: “Estamos tendo uma avalanche de corrupção no país, com a queda de sete, de oito, de nove ministros. E que bom que ela está sendo exposta. Por isso, eu acho que quem disse que o maior problema de Patos de Minas é a questão da corrupção, fala por desconhecimento ou mais por influência daquilo que é discutido na mídia”.
Problema mundial
De toda forma, Luís Geraldo disse ser importante destacar que, independente de estar em primeiro ou terceiro lugar, a corrupção é um problema mundial, não um fenômeno exclusivo do Brasil. O que existe, na avaliação dele, é exclusividade de entrega da sociedade brasileira à corrupção. “Isso é uma pandemia social, histórica, que acompanha a própria formação cidadã, a institucionalização da ordem através do Estado. É mais profunda em umas sociedades, menos profunda em outras, e o que reflete esse grau de profundidade é justamente a capacidade dos cidadãos abstraírem e conviverem com os problemas sociais. O grau de perturbação social que a corrupção traz reflete o nível de escolaridade, o padrão crítico e cultural de análise.”
O professor ainda explicou que a corrupção chegou ao Brasil nas caravelas portuguesas e, logo, há uma dimensão histórica muito grande de aceitação dessa prática. “O grave é que ela cristalizou-se, tornou-se senso comum e, pior, instalou-se praticamente em todas as instâncias do poder. Portanto, a corrupção vai aparecer em qualquer enquete que for feita. É um sentimento que está impregnado no DNA comportamental do povo brasileiro. Lógico que ela é menos aguda onde a população é mais participativa”, ressaltou.
Segurança
Apontada como o segundo maior problema de Patos de Minas, a criminalidade também foi analisada por Luís Geraldo. Segundo ele, enquanto a corrupção é um problema cultural que se alojou nas instituições administrativas, a segurança é uma questão puramente estrutural: “Os índices de violência refletem as condições socioeconômicas e socioestruturais de casa espaço. É uma patologia social, crônica em todas as esferas da administração pública”.
Ele chamou atenção para o fato de a violência urbana no país ser tratada como questão de segurança púbica. Para o professor, essa abordagem é errada, já que a base do problema está no fator socioeconômico. “Não existe política de segurança pública que minimize os índices de violência sem distribuição de renda e sem justiça social. Sem democratização das políticas públicas e sem otimização dos serviços sociais, pode-se colocar um aparelho de segurança pública, pode-se enrijecer as leis, que a violência vai continuar existindo”, disse.
Cenário local
Em sua análise, Luís Geraldo explicou que o crescimento da criminalidade em Patos de Minas não é um fator da atualidade. “No final dos anos 80, início dos anos 90, houve um surto de industrialização no município, criando-se a ficção de que essa era uma cidade do futuro. Houve também um surto de crescimento, mas muito tênue e instantâneo. Isso passou, perdeu-se investimento, a municipalidade perdeu arrecadação e, assim, a segurança pública empobreceu.”
E a questão vai além, pois, segundo ele, a ficção de que Patos de Minas era uma cidade de muitas possibilidades não desapareceu, embora a realidade fosse um engessamento econômico. A conseqüência foi um inchaço populacional sem uma estrutura urbana correspondente. “E até a arquitetura das casas mudou a partir dos anos 90, o que ilustra claramente a relação entre criminalidade e comportamento. Foram retiradas as frentes abertas das edificações urbanas e construídos muros eletrificados”, exemplificou Luís Geraldo.
Saúde
Quanto ao terceiro item do ranking, a saúde, o professor disse ser também uma questão estrutural. Mas, conforme ele, o problema se agrava porque o município absorve um contingente muito grande de pacientes de outras cidades.
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