População indignada
Coleta irregular deixa lixo espalhado pela cidade
Carolina Tafuri
REPÓRTER
A limpeza urbana tornou-se alvo de reclamações por parte da população, incomodada com as frequentes cenas de sacolas de lixo e detritos acumulados e espalhados nas ruas de Juiz de Fora. A maioria das queixas aponta a irregularidade nos horários e dias de coleta como ponto chave do problema, constatado em diferentes regiões da cidade, inclusive na área central. Segundo moradores das localidades afetadas, a permanência de resíduos nas vias e calçadas causa mau cheiro, atrai insetos e deixa o município com aspecto de abandono, caracterizando uma situação crítica. O diretor do Demlurb, Aristóteles Faria, reconhece as deficiências, e as atribui, principalmente, ao sucateamento da frota. “Os atuais 22 caminhões de coleta domiciliar próprios e os seis alugados não são suficientes para atender à demanda, dificultando que nossa equipe, embora empenhada, preste um serviço mais eficiente.” Segundo ele, entre a frota do órgão, o veículo mais novo foi fabricado em 2001, enquanto outros datam de 1990 e 1996. No entanto, a população prejudicada rebate: “A frota está sucateada há anos, mas a situação da limpeza está bem pior”, diz uma moradora da Cidade Alta. Ela conta que a orientação do Demlurb para os moradores é que o lixo seja colocado cedo na rua, já que o caminhão passaria às 8h. “Mas ultimamente, o material fica o dia inteiro na rua exposto.”
O problema é retratado em dezenas de e-mails e telefonemas direcionados ao jornal nos últimos dias, como a mensagem de um advogado, residente no Centro, que preferiu não ser identificado. “Desde o início do ano, o lixo que era recolhido pontualmente, às 19h, não tem mais horário fixo, transformando as áreas vizinhas à Rua Santa Rita em um imenso bota-fora. Aos sábados, também não é mais como antes, sempre às 14h.”
‘Verdadeiro caos’
A ineficiência da limpeza urbana também é sentida pelas comunidades dos bairros Monte Castelo e Carlos Chagas, Zona Norte. Um morador do Monte Castelo disse que a coleta não foi realizada entre os últimos dias 7 e 14, “transformando a região em um verdadeiro caos, com um cheiro insuportável”. O Demlurb admitiu o problema, e justificou que, na ocasião, havia quatro caminhões quebrados, impossibilitando o serviço na área.
A situação se estende para a Zona Sul. Na Avenida Darcy Vargas, no Ipiranga, a população reclama que, embora programada para o período da manhã, muitas vezes, a coleta é efetuada à tarde, além de falhar em finais de semana. “Em março foram dois sábados sem lixeiro. É sujeira por todo lado”, conta o presidente da SPM Jorge Brito. A comunidade ainda se queixa da falta de varrição na praça ao lado do posto de saúde. O proprietário de uma banca de jornal Erivelto de Almeida diz que a “sujeira é constante, e que os próprios moradores costumam varrer”. Morador do Granville, na Cidade Alta, Jayme Brandão reforça as queixas. “O serviço ficou deficiente nos três primeiros meses do ano, e só melhorou agora. Raramente os lixeiros não falhavam um ou dois dias por semana, além de passarem em horários diferentes. Antes eram mais pontuais.”
Impasse
Aristóteles Faria afirma que “o Demlurb está trabalhando no limite”, e, com isso, qualquer dano em um veículo prejudica o cronograma. “Quando um caminhão quebra, precisamos esperar que o de outra região termine o serviço para ser deslocado.” Ele acrescenta que o fato de o departamento não contar com carros extras também impede que estes sejam submetidos à manutenção diária. Para contornar as deficiências, o diretor do Demlurb aposta na locação de 12 novos veículos compactadores de resíduos sólidos, conforme edital do último dia 3. No entanto, o aluguel não tem data para ser efetivado, já que o processo licitatório foi suspenso por determinação da Justiça. A Vara da Fazenda Pública concedeu tutela antecipada à ação protocolada pelo vereador Roberto Cupolillo (Betão, PT), que pedia a imediata interrupção do processo, alegando que o custo de aquisição dos veículos seria inferior às despesas com a locação. O vereador Wanderson Castelar (PT) e o Sinserpu também se manifestaram contra o procedimento. O sindicato defende a busca de alternativas para reestruturar o Demlurb, e não aprova a opção pelo que classifica de terceirização. A Prefeitura já respondeu aos questionamentos da Justiça, e agora aguarda decisão.
Paralisação
A situação se agravou na últim sexta-feira com a paralisação dos servidores municipais, que atingiu o setor. No entanto, em nota divulgada ontem, a PJF afirma que o atendimento das regiões afetadas pelo protesto está sendo normalizado.
Maus hábitos agravam situação nas ruas
Apesar das irregularidades na coleta de lixo domiciliar serem a principal responsável pela sujeira nas ruas da cidade, outros problemas agravam a situação. Muitos moradores estão habituados a deixar as sacolas nas calçadas a qualquer hora do dia ou da noite. A falta de colaboração da sociedade é citada pelo Demlurb.
“As pessoas, em geral, não têm consciência e colocam o lixo de qualquer jeito nas ruas ou varrem as calçadas e não juntam ou embalam os detritos. Simplesmente deixam em um canto e, depois, tudo se espalha, podendo até entupir os bueiros”, diz o morador do Vale do Ipê, região central, Marcelo Leal. A funcionária pública Adriana Caetano Itabirano, moradora do Bonfim, Zona Leste, partilha da mesma opinião, e acredita que a cidade não ficará limpa sem a conscientização da comunidade. “De nada adiantarão novos caminhões e equipamentos se a população não se educar. Na minha rua, Barão do Retiro, vizinhos e lojistas preferem atirar o lixo nas calçadas, a colocá-lo em um recipiente adequado.”
O Demlurb aposta em campanhas educativas para conseguir apoio dos juizforanos, como aconteceu nos bairros Manoel Honório, Zona Leste, e Morro da Glória, região central, onde o projeto rendeu bons resultados. Segundo a assessoria do departamento, a proposta é intensificar o trabalho em todo o município, com orientações quanto ao acondicionamento de resíduos e a sua colocação nas calçadas em horários preestabelecidos.
Em desacordo
De acordo com o artigo 10 do Código de Posturas de Juiz de Fora, é vedado “expor o lixo ou resíduo para coleta fora do período estabelecido para o seu recolhimento” e “depositar ou descartar lixo em logradouros públicos ou privados, inclusive nas margens de rodovias, estradas vicinais ou ferroviárias, matas e florestas situadas na circunscrição municipal”. O descumprimento das normas pode levar à multa no valor de R$ 221,69, conforme informações da Secretaria de Atividades Urbanas.
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